Apresentação


Este livro foi escrito baseado em experiências profissionais de quase 40 anos, lecionando na Universidade Federal de Minas Gerais, Universidade de Uberaba e Centro Universitário Newton Paiva, assim como em outras experiências profissionais. Durante esse tempo, muitos alunos participaram de pesquisas em sua cidade natal, coletando exsicatas (plantas secas) para posterior identificação botânica. Só em um trabalho publicado foram analisadas 5.000 exsicatas. Além disso, foram mais de 20 cursos de extensão ministrados em Alfenas, Machado, Ouro Preto, Lavras, Viçosa e Uberlândia.

Ao iniciar meus trabalhos, tive a orientação do grande Professor José Martins Pinheiro Sobrinho. Com ele aprendi a base da fitoterapia e também fiz várias coletas em Ouro Preto e nos arredores de Belo Horizonte, quando ainda existia vegetação nativa em vários locais que hoje estão urbanizados. Além desses trabalhos, pude ainda coletar em várias cidades e serras como: a Fazenda Montes Claros, em Caratinga, Serra de Itabirito, Parque do Caparaó, Serra de Ouro Branco, Serra da Piedade, Serra da Moeda, Serra do Cipó, Serra Negra, o Morro do Chapéu, em Nova Lima, Pico do Itambé e ainda em Montes Claros e Grão Mogol.
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Foram entrevistados mais de 80 raizeiros deste Estado e, por isso, posso dizer que o conhecimento dessas pessoas simples é enorme e valioso, e agradeço a eles toda a colaboração que me prestaram. Outros pesquisadores publicaram seus trabalhos em Farmacologia e Fitoquímica, com as espécies medicinais de nosso Estado, e também esses trabalhos foram utilizados em nossa coletânea, mostrando, principalmente, o que já foi comprovado cientificamente. Em Minas Gerais, temos a influência de vários Grupos de origens diferentes que colonizaram nossas terras e trouxeram, com eles, várias espécies de seu local de origem, muitas se transformaram em subespontâneas. Em Ouro Preto, encontramos, nas frestas dos muros: Cymbalaria muralis, Fumaria officinalis, Parietaria officinalis, Lycopodium clavatum e outras espécies. Chegamos a coletar a Capsella bursa-pastoris, mas os locais onde a encontrei hoje são urbanizados. Junto a uma população de origem alemã encontramos Pimpinela magna, que eles chamam de agrião-do-mato. Em São Tomé das Letras, ainda pode ser encontrada a Urtica urens em seus terrenos baldios. Muitas plantas foram introduzidas pelos portugueses e pelos negros em Minas Gerais. A maioria das plantas medicinais cultivadas tem origem europeia. Já os negros contribuíram com muitas espécies na culinária mineira, tais como o ora-pro-nobis, o caruru, e o cará-miúdo, chamado de mangarito e só encontrado na cidade do Serro ou em uma comunidade negra de Contagem, Os Arturus.

Levei três anos para coletar todas as plantas com flor e para os artistas desenharem e pintarem as aquarelas. Por diversas vezes tivemos que voltar ao local onde as plantas floresciam para novas coletas das espécies.

É essa rica experiência que quero passar para vocês, e principalmente colocar que plantas medicinais podem causar muitos problemas se não forem observadas as quantidades em uso, pois a diferença entre o medicamento e o veneno é, às vezes, questão de dosagem. Tive, pois, a preocupação de colocar em cada espécie as contra-indicações, toxicidade e a moderna interação medicamentosa.

Com respeito à coleta, é necessário chamar a atenção para o cuidado com o local onde são feitas. Muitos, em Belo Horizonte, coletam plantas na beira dos passeios, onde corre a água de chuva, e, nesse caso, a planta pode estar contaminada com bactérias e parasitas. Lembro-me de um poço, em Taquaraçu de Minas, de onde a população apanhava água para beber, e ela estava com caramujos transmissores de parasitas. Outro fato que pode ocorrer é a coleta de plantas erradas, mas as figuras, em aquarela, facilitarão a identificação. Espero que esta obra venha contribuir para um melhor conhecimento das plantas medicinais.

~ Telma Grandi ~